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A Inconfidência Mineira e o papel de Tiradentes no movimento

A Inconfidência Mineira foi um enorme movimento social de larga escala no estado de Minas Gerais que, na época, era considerada capitania de Portugal. Envolveu uma infinidade de situações e foi liderada por José Joaquim da Silva Xavier, conhecido por Tiradentes.

É comum que grandes movimentos sociais destaquem sempre uma ou duas personagens cujos nomes parecem abraçar todo sentido daquele movimento em si. Segundo sociólogos e antropólogos de renome, esse fenômeno de identificação de um nome associado a algum movimento é natural.

É produto de tempos em que a comunicação era lenta, quase deficitária. Foi o que aconteceu entre Ulysses Guimarães e o movimento de Diretas Já; Getúlio Vargas e o Estado Novo; Tancredo Neves e a Democracia Brasileira; Luís XV e a Revolução Francesa, dentre muitos outros.

Assim, é impossível se falar em Inconfidência Mineira sem mencionar José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes.

O significa o termo “inconfidência”?

Não é raro que estudantes em geral leiam ou discutam a Inconfidência Mineira sem necessariamente saber o significado do termo em si. Como a matéria acadêmica trata de diversos assuntos e menciona diversos nomes e data, o uso da palavra se torna automático, quase inconsciente.

Mas, é claro, ela tem um significado. E é sempre muito interessante e importante que se conheça o sentido real das palavras para se compreender o discurso de um texto, de uma matéria escolar especialmente.

Vamos entender as partes da palavra:

  • In – prefixo significativo de intenção negativa
  • Com (ou “con”) – prefixo designativo de força de ideia, intensificativo
  • Fidência – confiança, crédito, crença; termo originário do latim fidere, fidentia

Portanto, “inconfidência” quer dizer “divulgação de um segredo”, “indiscrição”, “desconsideração para com um sigilo”. No frigir dos ovos, o termo tem associação direta com a ideia de deslealdade, falta de fidelidade para com alguma situação de conhecimento restrito a poucas pessoas.

O conceito em si é comumente ligado a circunstâncias de autoridades ou de governos em geral. Aliás, é o caso da Inconfidência Mineira. Mas, claro, não se limita a traições no âmbito da soberania pátria.

Então, retomando a ideia, um inconfidente é alguém que falta com a lealdade para com outra pessoa ou com um grupo, pois trai a confiança.

Um significado menos usual para o termo é a questão religiosa. Um inconfidente é também considerado herege, já que não oferece confiança.

Então, Tiradentes foi um traidor?

Essa dúvida nasce justamente na falta de informação sobre o termo inconfidência que a gente mencionou acima. Muitos alunos e leitores de nosso site apresentam confusão. Afinal, como a história sempre associa “Inconfidência Mineira” a Tiradentes e o termo sugere ação negativa, ação de traição, a confusão está formada.

O título “Inconfidência Mineira” se refere ao fato de ter havido um traidor no movimento que Tiradentes liderou (veja mais abaixo). Ou seja, Tiradentes foi mentor, foi executor do movimento de revolução que tinha um propósito positivo, mas o traidor, o inconfidente, foi outra pessoa (saiba mais dando andamento a esta leitura).

Tiradentes, uma personalidade

Como a gente comentou acima, a personagem em destaque do movimento da Inconfidência é Tiradentes. Assim, para se conhecer o seu real envolvimento no iniciativa inconfidente, é interessante que se observe um pouco de seu pensamento.

Segundo levantamento feito por meio de registros históricos e análises de situações da época, Tiradentes foi uma personalidade inquietante, radical, questionadora, preocupada com sociedade a sua volta.

Foi visto, muitas vezes, discutindo acaloradamente, mas sempre com postura educada, com conhecidos e amigos. Seus temas comuns eram as condições da comunidade de sua região e especialmente política.

Ele próprio não se considerava um cidadão intelectual. Isto é, “intelectual” no sentido de ter estudado em escolas superiores propriamente dita. Porém, gostava de permanecer bem informado, de discutir assuntos contemporâneos e se inteirar das condições sociais de Minas Gerais. Suas leituras tinham caráter político, via de regra.

Para isso, conversava muito, por exemplo, com Tomás Antônio Gonzaga e com Cláudio Manoel da Costa. Por sua vez, esses dois poetas foram profundos discutidores dos assuntos pertinentes ao Iluminismo.

Tiradentes usou muito de seu tempo na leitura da história da independência dos Estados Unidos. É bom notar que a independência daquele país se deu na época em que Tiradentes contava mais ou menos 30 anos de idade. Isso significa que suas ideias libertadoras já estavam formadas em sua postura, seu comportamento.

A Inconfidência Mineira

bandeira da inconfidência mineira tiradentes
Tiradentes teve papel destacada na Inconfid6encia mineira.

Houve muitas situações que resultaram na Inconfidência Mineira. Para compreendê-la firmemente, é preciso entender algumas dessas situações.

Domínio Português

O Brasil era dependente de Portugal. Essa dependência se estendia a questões jurídicas, de soberania, econômica etc. Assim, todas as decisões importantes eram tomadas pela corte e autoridades do país europeu. Ou seja, o domínio de Portugal sobre o Brasil como um todo era geral.

Porém, em Minas Gerais, a percepção desse domínio foi muito mais sentida. O hoje estado (capitania, naquela época) era extremamente rico em minérios importantes, especial ouro e prata.

Durante anos, Portugal recolheu impostos altíssimos – na verdade, impostos realmente escorchantes e humilhantes – sobre a extração desses minérios. Enquanto isso, o povo passava necessidades a olhos vistos. A tributação avançava sobre a população como um todo. As condições econômicas eram terríveis, com falta de alimentos e outras necessidades básicas. Aos poucos, o espírito da revolta foi se instalando no meio popular.

Derrama

Derrama é o nome dado à ordem da coroa de Portugal para que se cobrassem todos os impostos atrasados da elite mineira. Assim, arrecadadores de impostos enviados pela coroa portuguesa iam a fazendas, minas e estabelecimentos comerciais recolher o “quinto”.

“Quinto” era o percentual (20%) recolhido pelo governo português sobre tudo que as minas brasileiras produziam. Há registros de que esse percentual era muito maior e de que, na realidade, se tratava apenas um nome prático dado à regra portuguesa.

Em verdade, por mais que arrecadasse, a coroa portuguesa estava sempre insatisfeita com a quantidade de ouro que lhe pertencia por direito. Essa quantidade deveria ser enviada ao reino anualmente. As autoridades portuguesas desconfiaram que boa parte do ouro estava sendo contrabandeada.

Assim, estipulou nova ordem: o Brasil, (Minas Gerais propriamente dita), estava obrigado a enviar 100 arrobas de ouro para a colônia todo ano. Ou seja, quase uma tonelada e meia do mineral. Se a quantidade não fosse alcançada, o governo lançaria mão da “derrama” para complementar o lote. Isso significa que todos os moradores eram obrigados a dispor da parte que lhe cabia.

Um novo governador da capitania foi designado para aplicar a nova regra. Tratou-se de Luís António Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro, chamado de Visconde de Barbacena. Tinha ordens expressas para lançar a derrama.

Certamente, essa decisão dos portugueses não foi aceita de maneira passiva pela elite mineira. Afinal, aquela elite era proprietária da maioria das minas e fazendas e toda ela estava endividada com o erário português.

Participação de Tiradentes

Então, dadas as explicações acima, você já pode ter uma ideia de como estava o clima na capitania da época. A bem da verdade, houve diversas pequenas revoltas sociais, rápidos motins, antes da Inconfidência.

Exemplo do clima de então: Guerra dos Emboabas e a Revolta de Filipe dos Santos, nas quais houve confrontos razoavelmente sangrentos contra a postura da coroa portuguesa.

Por outro lado, Vila Rica tinha crescido a olhos vistos. Tanto que acabou se convertendo em capital de Minas Gerais e, décadas depois, no maior centro comercial de Portugal na América do Sul.

Nota acadêmica: No caso de você precisar saber ou apenas ter curiosidade, a região em se deu a Inconfidência se chamada Vila Rica. Porém, o nome completo era Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Albuquerque, em homenagem a António de Noronha de Albuquerque, governador da capitania de S. Paulo, e hoje é a cidade de Ouro Preto.

Portanto, era de se esperar que produtores se juntassem a descontentes para discutir ações contra a coroa. Dentre tais revoltados, estava Tiradentes, além de Joaquim Silvério dos Reis, este, sim, o inconfidente (veja abaixo outros nomes envolvidos).

Assim, Tiradentes assumiu a liderança do movimento por conta de seus conhecimentos em geral e sobre a revolução nos EUA, conforme a gente disse acima. Promoveu reuniões, determinou pequenas ações de vigilância, instigou todos à revolta, inclusive populares de maneira geral. Há registros de que organizou tentativa de assassinato do governador, Visconde de Barbacena.

Independência regional e não nacional

É preciso destacar que o sentido de nacionalidade, de território soberano do Brasil, ainda não havia se formado. Os fatos referentes à Inconfidência Mineira se limitaram exatamente àquela capitania, pois eram os mineiros que mais sentiam a pressão econômica e jurisdicional da coroa portuguesa.

Nesse caso, o movimento dos inconfidentes tencionou produzir resultados para Minas Gerais e não exatamente para o Brasil todo. Ou seja, queriam a independência daquele estado apenas, já que não se tinha conhecimento de outras revoltas pontuais em outras regiões do país.

Instauração da República

Como consequência, deveria ser instalado novo tipo de regime político após a separação de Portugal. A independência de Portugal não teria sentido se não fosse dessa maneira. Assim, Tiradentes convenceu os participantes de que o ideal seria estabelecimento de uma República.

Com toda certeza, essa percepção de Tiradentes estava baseada na excelente impressão que suas leituras introduziram em si. O desenvolvimento político, social e econômico que o Iluminismo e a Independência dos EUA demonstravam ser possível era base para seu pensamento.

Batalha perdida, mas não a guerra

Dentre os participantes do grupo de levante contra Portugal, estava Joaquim Silvério dos Reis Montenegro Leiria Grutes. Era coronel comandante do Regimento de Cavalaria Auxiliar de Borda do Campo, fazendeiro e proprietário de minas de ouro.

Apesar da patente e da propriedade, estava extremamente endividado com a coroa. De personalidade arrogante e de trato difícil, mantinha contatos infiltrados no grupo de Tiradentes. Assim, foi informado do levante que Tiradentes preparava para o ano seguinte. Corria, então, o ano de 1788.

Silvério dos Reis, então, enviou carta de delação em 11 abril de 1789 para o governador de M. Gerais. Nela, alertou sobre as ações dos inconfidentes que tentavam derrubar o domínio de Portugal sobre a capitania (lembre-se de que ainda se tinha formado o caráter de brasilidade).

Na mesma carta em que delatava Tiradentes e seus colegas de ação, Silvério dos Reis pleiteou alguns prêmios, tais perdão de suas dívidas, certa quantidade de ouro, uma mansão na Vila Rica, ocupação de cargo importante no Tesouro Real no Brasil, título de fidalguia da Casa Real.

Além de todos os prêmios acima e outros menores, quis ainda uma pensão vitalícia. Não há registros históricos se o traidor conseguiu toda ou ainda parte do que reivindicou.

A prisão dos Inconfidentes

O governador mandou montar esquema para sabotar os inconfidentes. Adiou a data da derrama, marcada para os dias seguintes. Pouco mais de três anos depois, mandou prender todos os envolvidos no motim que tinham sido listados na carta de Silvério dos Reis.

Obviamente, todos os envolvidos na Inconfidência negaram participação no levante, exceto o próprio Tiradentes. Sua personalidade orgulhosa não permitiria voltar atrás depois de tantos planos. Assim, a sentença de morte por enforcamento ordenada pela Justiça portuguesa foi proferida em 18 de abril 1792.

Entretanto, apesar da negativa de participação, todos os denunciados foram condenados, mas apenas Tiradentes foi vítima da sentença de morte. Alguns à prisão perpétua, outros à prisão por longo tempo, outros ainda à degradação da sociedade.

Enforcamento e esquartejamento

Dessa maneira, Tiradentes foi enforcado em praça pública em 21 de abril de 1792. Isso se deu três dias depois de lida a sentença e pouco mais de três anos depois do envio da carta de Silvério dos Reis ao governador.

O corpo de Tiradentes foi transferido para as dependências do Exército português, na unidade chamada Casa do Trem. Foi esquartejado por ordem do governador.

O tronco foi levado à Santa Casa de Misericórdia e enterrado como indigente no cemitério local; os membros foram salgados ainda na unidade do exército. Essa foi a estratégia usada para que não se decompusessem e, assim, permanecessem visíveis por dias.

Afinal, deveriam ser espalhados pela região de Minas Gerais como exemplo de destino de traidores da pátria. Já a cabeça permaneceu exposta sobre a extremidade de um poste em frente à sede do governo.

Outros inconfidentes

  • Domingos de Abreu Vieira: Tenente-coronel da Cavalaria Auxiliar de Minas Novas. Foi também administrador dos contratos e de coletas de impostos, além de comerciante
  • José da Silva e Oliveira Rolim: Foi um dos mais ricos e ativos conspiradores da Inconfidência Mineira. Sua família enfrentou terríveis problemas financeiros e, por isso, toda ela passou a praticar contrabando de outro e de escravos. Por isso, Rolim foi condenado juntamente com alguns parentes. Então, procurou tornar-se padre para se livrar da cadeia e, portanto, do processo criminal. Era inescrupuloso e corrupto. Mesmo como padre, teve sua revogação de pena negada pelo governador. Por isso e apenas por isso, aliou-se aos inconfidentes.
  • Manuel Rodrigues da Costa: Sacerdote católico, político e revolucionário.
  • Carlos Correia de Toledo e Melo: Foi outro padre católico, pároco da Vila de São José Del-Rei. Foi também um dos mais ativos inconfidentes
  • Cláudio Manuel da Costa: Advogado, minerador e poeta português. Além disso, era proprietário de rica fazenda. Foi grande amigo do artista Aleijadinho
  • Tomás António Gonzaga: Foi um jurista, ativista político e poeta. Seu nome era tido como iminente e excelente artista árcade. Até atualmente, é pesquisado e estudado em escolas e universidades do Brasil por conta de suas obras

Assim foi Tiradentes, o Inconfidente Mineiro. Se você precisar saber mais sobre esse tema fabuloso, instigante e importante para a construção da história brasileira, deixe sua pergunta na área de comentários abaixo. Se tiver sugestões que possam complementar este artigo, deixe também.